Final épico no Dakar 2026: Benavides bate Brabec por dois segundos e dá a vitória à KTM

No contexto do Dakar 2026, os dias em que Daniel Sanders parecia competir num patamar próprio, com Tosha Schareina como único adversário credível, parecem agora longínquos. O equilíbrio de forças começou a alterar-se ainda cedo, quando o espanhol foi penalizado em dez minutos por ignorar bandeiras à saída do bivouac-refúgio na etapa 5. A partir daí, a Monster Energy Honda HRC encontrou em Ricky Brabec um líder sólido e consistente, capaz de enfrentar de igual para igual o australiano da KTM.
O duelo entre Sanders e Brabec prometia tornar-se um clássico, até que o campeão do mundo caiu violentamente a caminho de Bisha, lesionando o ombro esquerdo e vendo ruir a possibilidade de conquistar um segundo Dakar consecutivo, embora sem ser forçado a abandonar. Ainda assim, a Red Bull KTM Factory Racing recusou baixar os braços e encontrou rapidamente um novo trunfo. Luciano Benavides assumiu o protagonismo, conquistando a liderança da geral pela primeira vez ao vencer a etapa 8 — a terceira vitória do ano — abrindo então uma diferença mínima de apenas dez segundos para Sanders.
Com a queda do australiano, toda a responsabilidade da KTM passou a recair sobre os ombros do argentino, agora frente a frente com Brabec, vencedor do Dakar em 2020 e 2024, que mostrava estar em plena forma. O norte-americano respondeu com inteligência estratégica: no final da etapa 11, optou por perder propositadamente algum tempo, um golpe de mestre que deixou Benavides na liderança por escassos 23 segundos, mas numa posição ingrata para a etapa seguinte, obrigado a abrir pista numa jornada decisiva. O impacto psicológico foi evidente, e o argentino parecia longe da sua habitual confiança nessa noite.

O plano de Brabec parecia perfeito. À partida para a última etapa, tradicionalmente encarada como uma formalidade, o piloto da Honda dispunha de 3m20s de vantagem. O título parecia decidido… até ao quilómetro 98,4. A abrir a pista, Brabec tinha apenas sete quilómetros “de desfile” pela frente quando um erro de navegação o levou demasiado à esquerda, obrigando-o a um desvio de cerca de três quilómetros para regressar ao traçado correto. Enquanto isso, Luciano Benavides cruzava a meta e assistia incrédulo ao momento em que Brabec terminava a especial apenas dois segundos mais tarde. A margem mais curta de sempre na história do Dakar. Um final absolutamente insano, ainda mais apertado do que o triunfo de Kevin Benavides em 2023, quando venceu por 43 segundos frente a Toby Price.
Esta 21.ª vitória da KTM no Dakar confirmou a supremacia da marca austríaca e deu início a uma verdadeira “maré laranja” no Mar Vermelho. Também na classe Rally2 houve reviravolta a favor da KTM. Preston Campbell, filho do antigo piloto Johnny Campbell — mentor de Brabec — liderou até ao final da etapa 11, mas acabou superado pela recuperação consistente do esloveno Toni Mulec. O piloto da equipa satélite BAS World KTM, na sua quarta participação no Dakar, assumiu o comando e não mais o largou, terminando com 4m37s de vantagem. Campbell, 10.º da geral, conquistou ainda o título de melhor rookie como prémio de consolação.
Por fim, destaque para Benjamin Melot, que assegurou o triunfo na exigente categoria Original by Motul, destinada a pilotos sem assistência. Depois de o título lhe ter escapado por pouco em 2025, o francês fechou finalmente essa conta em 2026, superando o espanhol Josep Pedró por 14m32s e terminando em 18.º da classificação geral.
O Dakar 2026 ficará para a história como uma das edições mais imprevisíveis, dramáticas e emocionantes de sempre, decidida ao segundo numa prova onde, normalmente, contam os minutos ou as horas.



